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Escrever é um ato político!

E, NÃO SE ENGANE, EXISTIR TAMBÉM!

O escritor português José Saramago nos diz que “todos nós somos escritores, só que uns escrevem e outros não.”, e a partir dessa frase, compreendo a escrita não apenas como o registro de palavras, frases, textos, mas principalmente como uma forma de ser, estar e existir num mundo e numa sociedade marcada por desigualdades, contradições, exclusões e violências de diversas formas.

Nesse contexto, escrever nunca foi apenas sobre juntar palavras, é sobretudo escolher o que dizer, quando e a forma como se diz, mas também decidir o que não se quer deixar ser esquecido. É olhar para o mundo, perceber suas contradições e, de alguma maneira, posicionar-se diante delas. Por isso, escrever é um ato político.

(Ilustrações de Rayane Braga, do livro Sou Força, sou mulher! de Juliana Soares-2026)

Quando eu decido escrever este artigo, um livro, um cordel, uma poesia, por exemplo, há uma razão também ideológica, para os fazê-los portanto, um ato político, sem neutralidade e com posicionamento em tais atos. Pois, toda escrita carrega em si uma visão de mundo e mesmo quando não se fala diretamente de política, ela revela aquilo que acreditamos, aquilo que valorizamos, aquilo que nos incomoda e aquilo que desejamos transformar.

ESCREVER É UM ATO POLÍTICO

Quando escrevemos sobre uma mulher que resistiu, como: Dandara de Palmares, Maria Quitéria, Marielle Franco, Maria da Penha, Margarida Maria Alves, e tantas outras, sobre um povo que teve sua história silenciada, sobre a nossa terra, nossa cultura, nossa ancestralidade ou nossas dores, estamos dizendo: isso importa e precisa urgentemente ser visto, falado e lembrado, portanto isso é político.

         (Ilustrações de Rayane Braga, do livro Sou força, sou mulher! de Juliana Soares, 2026)

Historicamente, algumas vozes tiveram o privilégio e o poder de contar a história, numa única perspectiva: dominante, eurocêntrica e patriarcal, enquanto outras histórias foram colocadas no silêncio. Mulheres, negros, nordestinos, trabalhadores, povos originários e tantos outros sujeitos que tiveram suas experiências diminuídas, distorcidas ou simplesmente apagadas dos livros.

Escrever, então, também pode ser uma forma de ocupar espaços que historicamente nos foram negados. Quando uma mulher escreve, ela não escreve apenas sobre si. Muitas vezes, escreve por todas aquelas que não puderam escrever. Quando um nordestino ou nordestina escreve sobre seu chão, sua fala, sua gente e sua cultura, ele está afirmando em sua escrita que o Nordeste não é apenas cenário de estereótipos, mas território de memória, inteligência, criação e potência.

(Ilustração de Rayane Braga, do Folheto: O alfabeto em cordel, Juliana Soares – 2026; Ilustradora: https://www.instagram.com/rayaneilustra/ )

Escrever, é também escolher quem merece estar dentro das páginas. É apresentar às crianças personagens que se parecem com elas. É colocar uma mulher negra no centro de uma narrativa. É contar a história de uma liderança popular. É falar de ancestralidade.  É registrar a memória de uma comunidade antes que ela se perca. É transformar aquilo que alguém tentou chamar de pequeno em algo grande o suficiente para virar literatura.

(Autora: Juliana Soares, Ilustradora: Rayane Braga, 2023)

 Dessa forma, escrever é político também porque pode, deve e precisa provocar perguntas e gerar reflexões profundas, em quem escreve e também em quem lê. A literatura não precisa entregar respostas prontas. Às vezes, sua maior força está justamente em nos fazer parar e perguntar: por que as coisas são assim? Quem contou essa história? Quem ficou de fora? Quem teve o direito de falar? Quem foi silenciado? O que estamos ensinando às próximas gerações?

Uma palavra pode não mudar o mundo imediatamente, tal como desejamos. Um poema talvez não derrube uma estrutura de desigualdade existente. Um livro não resolve sozinho as injustiças de uma sociedade tão desigual. Mas eles podem mudar pessoas, que podem mudar realidades, e isso nos faz lembrar um pouco do educador Paulo Freire, sobre a educação, quando diz que:

Para mim, a literatura (livros, leituras, escritas) seguem essa mesma lógica.

E, isso tudo me faz pensar meu papel enquanto escritora, tendo em vista que eu escrevo porque existem histórias que ainda não foram e precisam ser contadas, porque há memórias que não podem morrer, porque eu acredito que uma criança pode se reconhecer num personagem e, a partir desse reconhecimento, imaginar novos caminhos para si. Escrevo porque a cultura também é uma forma de existir, de pertencer e de afirmar: nós estamos aqui.

 (Personagem Chapeuzinho de Chita ilustração de Rayane Braga, do livro Chapeuzinho de Chita: uma aventura em cordel, de Juliana Soares, 2023)

É escolher as palavras quando nos é imposto o silenciamento, é registrar nossa existência quando tentam nos apagar, é transformar nossas experiências sejam elas quais forem, em memórias, em narrativas e possibilidades. Talvez nem todo escritor tenha essa clareza e consciência quando escreve. Mas, toda vez que colocamos uma história no mundo, fazemos uma escolha sobre aquilo que merece ser visto, ouvido e lembrado. E, num mundo onde ainda existem tantas vozes silenciadas, escrever pode ser uma das formas mais bonitas de dizer: eu existo, eu lembro, eu penso, eu questiono e eu tenho algo a dizer. Porque escrever é mais do que produzir literatura.

Escrever é, portanto, ESCOLHA, DECISÃO E POSICIONAMENTO.

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